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O comportamento natural do cão

Diz a lenda que após Adão e Eva serem expulsos do paraíso, um grande abismo se abriu entre eles os animais, e no último momento em que abria o abismo, o cão decidiu pular e passar o resto de sua vida ao lado do homem. De todos os animais com que temos contato, o cão é o que mais se uniu a nós. E desde os primórdios da domesticação, o homem se depara com o comportamento do cão. E mesmo depois de tanto tempo convivendo juntos, nós ainda encontramos muitos problemas na relação homem x cão. No artigo de hoje iremos entender melhor qual é o comportamento natural dos cães, e por que isso deve ser levado em conta na hora de nos relacionarmos com eles.

O cão na natureza     

                Para entender as atitudes e comportamentos dos cães corretamente devemos analisar como o cão era na natureza, ou seja, na sua vida livre antes da domesticação. Ou no caso de cães selvagens e lobos que ainda existem até hoje. A inteligência, o caráter afetivo, seu poder de observação e sua grande lealdade não devem nos iludir, pois o cão continua sendo um animal criado pela natureza.

Lobos:são os ancestrais dos cães, sendo que existem atualmente 3 espécies diferentes e muitas subespécies. Os lobos utilizam estratégias inteligentes para sobreviver, na caça eles encurralam e cansam a presa atacando quase sempre em grupo. Após o abate, eles ingerem o máximo possível de alimento que podem, já que não sabem quando será a próxima caçada de sucesso.São animais muito observadores e se expressam ativamente utilizando a linguagem corporal, características essas ainda marcantes no cão doméstico. Respeitam rigorosamente a hierarquia do grupo, onde sempre existem os indivíduos dominantes e os “subordinados”. Os lobos marcam seu território através da urina e fezes, conhecendo bem seu território que é bem amplo, podendo chegar a centenas de quilômetros quadrados.

Cães selvagens: existem diferentes espécies de cão selvagem, e podemos citar o Dingo (aparência muito semelhante a um cão comum), e o Mabeco (cão selvagem africano) como as mais conhecidas. São canídeos e carnívoros assim como os lobos e os cães domésticos. O comportamento deles não difere muito dos lobos, sendo um pouco mais sociáveis e afetuosos entre si. Como são animais menores que o lobo, utilizam técnicas ainda mais sorrateiras e avançadas para caçar. Para evitar perder a presa abatida para carnívoros maiores, eles a ingerem muito rapidamente. São animais extremamente inteligentes também, com grande capacidade de aprendizado por observação. 

                Vendo todas essascaracterísticas acima acho que já deu pra perceber várias semelhanças com o cão que conhecemos, não é? A vontade incansável de passear, o apetite voraz, o comportamento sociável, a capacidade de imitar após observação, entre outros comportamentos são oriundos dos seus ancestrais, e são naturais.

Cães gostam de caçar

            A falta de necessidade de caçar graças a oferta de alimentos, associada a busca de animais mais dóceis que fazemos quando domesticamos os cães, deixouo cachorro doméstico urbano praticamente incapaz de caçar uma presa viva. Entretanto, o instinto caçador ainda existe, e as preferências alimentares são parecidas com as dos ancestrais.  Cães criados soltos em fazendas e campos aprendem a caçar com facilidade quando estimulados. O homem desenvolveu no passado várias raças para caça, auxiliando-o a capturar o animal que seria utilizado para alimentar sua família. Com a modernidade, essas raças foram se tornando animais de companhia e raramente são usadas para esse fim.  A brincadeira de correr atrás da bolinha, de chacoalhar o pano e fazer cabo de guerra com esses e outros objetos é um claro sinal do instinto caçador se manifestando no animal que vive dentro da nossa casa.

Como funciona a matilha   

                Os cães não são animais solitários. Quem tem um sabe da necessidade que ele apresenta em ter um convívio social, seja ele com humanos ou outros cães. Na natureza, os lobos respeitam sempre a hierarquia dos indivíduos dominantes, que usam uma linguagem corporal (rabo e cabeça, principalmente), estabelecendo através destes sinais a ordem social.

            Os cães também entendem a vida na nossa sociedade dessa maneira, por níveis de dominância na matilha. O tutor do cão deve ser visto como um líder, pois é ele que traz a comida, que toma a frente das situações e dá as ordens. Porém, geralmente o cão vai tentar se impor nos espaços que o dono deixa, em alguns casos ele pode até tomar essa posição de liderança completamente. Essa inteligência social é típica dos cães, e é natural que eles tentem a todo tempo buscar seu espaço na hierarquia. Vale lembrar que o cão herdou todos instintos de sobrevivência, proteção e afeto que seus antepassados necessitaram para manter a espécie, portanto ele está muito longe das preferências e gostos que nós humanos temos. Sem entendermos isso, acabamos ficando nervosos e frustrados com algumas atitudes dos cães. Praticamente todo comportamento do seu “melhor amigo” é um reflexo das nossas atitudes em relação a ele.

A importância do líder

            O cão precisa ser conduzido e ensinado, é assim que eles aprendem seu papel na matilha. O líder impõe respeito pelos sinais e atitudes. Os cães passam e recebem informações para entender sua função no grupo o tempo todo. A atitude física é usada apenas em último caso, e após os sinais iniciais terem sido ignorados.  Quando nós tentamos nos impor fisicamente, podemos até conseguir a liderança, porém provavelmente aquilo vai passar um sinal para o cão de que apenas a agressividade funciona para resolver uma situação, e com isso ele reproduzirá o mesmo comportamento quando julgar necessário.

            Ser o líder da matilha significa estabelecer as regras, coibir o comportamento indesejado e recompensar quando o cão está se comportando corretamente. Quando nós invertemos os papeis, fazendo todas as vontades dos cães, exagerando nos mimos e permitindo total liberdade, ele irá tomar a posição de líder naturalmente. Portanto, do ponto de vista do cão, não é errado se impor e teimar quando ele recebe sinais que ele pode fazer isso. Fatalmente irão ocorrer conflitos quando o tutor tentar impor limite após uma série de liberdades, e esses conflitos fazem mal a pessoa e ao cão. Um líder que guie o animal, que permite a ele exercer seu comportamento natural sem “humanizá-lo” favorece muito no convívio saudável e feliz de ambos.