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Hábitos e comportamento dos felinos

            Os felinos são animais misteriosos e instigantes. Apesar de os gatos já serem pets tão populares (nos EUA, por exemplo, é o animal de estimação mais comum), nem tudo se sabe sobre seu comportamento. Sabemos que eles têm ainda certa proximidade com seus ancestrais e com os grandes felinos da natureza, e que isso reflete muito nos hábitos do bichano que temos em casa. Veja neste artigo tudo o que você precisa saber sobre o comportamento e os hábitos dos felinos.

 

O comportamento do seu gato e a relação com o felino selvagem

            O gato doméstico é um animal que se adaptou muito bem a viver dentro de casa, em contato com seres-humanos e longe da floresta ou selva. Entretanto, ele carrega ainda uma série de comportamentos dos seus antepassados selvagens,hábitos quepodem causar estranheza para a gente, mas que devem ser observados e respeitados a fim de garantir o bem-estar físico e mental dos bichanos.

            Primeiramente, temos que explicar de onde descende o gato doméstico.Tudo leva a crer que eles são originários do Felis silvestres (gato selvagem, ou gato bravo), que por sua vez é descendente de outras espécies de felinos (outros gatos selvagens) que cruzaram entre si. Esse felinoprovavelmente se aproximou do ser humano em busca de presas que eram atraídas pela agricultura, atividade que o homem já desempenhava há milhares de anos. Essa aproximação trouxe benefícios para ambas espécies, homem e felino, e com isso a domesticação começou a cerca de 10-12 mil anos atrás. Ou seja, apesar de ser um felino carnívoro estrito, tal qual um leão ou tigre, o gato doméstico está muito mais próximo do gato selvagem, um animal bem menor e mais versátil. Vale ressaltar que a distância evolutiva do gato ao seu ancestral selvagem é menor que no cão, por exemplo, e isso deve ser levado em conta na hora de criá-lo.

            Os felinos selvagens apresentam hábitos crepusculares e/ou noturnos, por isso os melhores horários para brincadeiras e atividades com os gatos são no início da manhã (bem cedo) e no início da noite. Eles têm os sentidos da audição, visão e olfato muito apurados, e são escaladores natos, com grande facilidade de subir em árvores. São quase sempre solitários, se relacionando com outros indivíduos apenas para se reproduzir ou quando a fêmea está com suas crias. Por isso, o gato doméstico não é tão sociável e receptivo quanto um cachorro. Eles tendem a guardar sentimentos e emoções para si, sem demonstrar claramente seu desconforto. Isso é um hábito que veio da vida selvagem desses animais, que têm um instinto muito mais competitivo do que colaborativo.

            Podemos dizer que o gato doméstico ainda apresenta boa parte das características dos seus antepassados selvagens, porém em escala muito menor, e com uma grande influência da seleção artificial que o homem fez nesses animais ao longo dos séculos, reproduzindo e criando os indivíduos mais mansos e tolerantes à aproximação humana. Essa influência transformou o gato selvagem, completamente arisco e distante, no “gatinho” dócil que conhecemos hoje. Um animal adaptado e na maioria das vezes dependente do ser humano, porém com um instinto selvagem ainda bem aguçado e aparente, o que é muito importante para entendermos e respeitarmos o comportamento do nosso felino de estimação, sem forçar hábitos que ele não está biologicamente adaptado a fazer, gerando estresse e sofrimento para o animal.

 

Gatos gostam e precisam “caçar”

            Os felinos são animais carnívoros obrigatórios, conforme explicado em detalhes neste artigo, eles dependem de uma alimentação rica em proteínas e gorduras de origem animal, e com quantidade pequena ou controlada de carboidratos. Na natureza os gatos selvagens se alimentam exclusivamente de presas como roedores, lebres, aves, pequenos répteis, anfíbios e até insetos. Essa necessidade de proteína animal não mudou, e nossos gatos precisam ingerir alimentos que contém os mesmos nutrientes das presas.

            O comportamento de caçador também está presente no gato doméstico (em menor grau), e é normal que ele reproduza isso em casa e na rua.  A mãe felina costuma trazer presas para suas crias, estimulando desde cedo seu instinto. Ao sentir o odor e o sabor dessas presas, além de observar sua mãe caçando, o gatinho já aprende que deve precisar caçar para sobreviver no futuro.  Sabe quando o gato sai correndo feito um doido pela casa, persegue um inseto, ou quando ele repentinamente ataca o seu pé? Pois é, isso é o instinto de caçador dele aparecendo dentro de casa, e não precisa ser coibido. Como atualmente os gatos domiciliados não precisam predar para sobreviver, pois têm a disposição alimentação industrializada de qualidade, não é necessário estimular a saída do animal para caçar, sendo importante apenas que coloquemos à disposição brinquedos e outros estímulos que façam eles se movimentarem e brincarem, gastando energia de maneira saudável e segura.

            Outro hábito descendente do instinto caçador é o de afiar as unhas. Gatos procuram sempre arranhar superfícies para manter suas unhas afiadas e saudáveis, além de usar elas como forma de marcar territórios. Por isso, tenha diferentes tipos de arranhadores para o seu gato poupar sofás, camas e cortinas.

 

Um animal territorialista até hoje

            Na natureza os felinos são animais solitários e exploradores de grandes áreas, despendendo boa parte de seu período de atividade em busca de presas e defendendo seu território. Por isso existe a tendência de nossos amigos gatos em passear tanto pela rua e adjacências. Apesar disso, sabemos que hoje em dia é muito perigoso deixar o gato livre, principalmente pelas ruas em centros urbanos, onde há o risco de atropelamentos, brigas e quedas.

            Com isso, o território deles se resume a casa em que vivem, onde precisam sentir e saber tudo sobre esse espaço, demarcando o seu território ao se esfregar nos locais para deixar seu cheiro. Alguns gatos usam a urina para isso, o que pode ser evitado ao castrar o animal bem cedo, e proporcionar um ambiente sem competição para ele (outros gatos disputando espaço).  Por isso não é fácil inserir um novo gato no domicílio, sendo necessário todo um processo de aproximação dos animais, com muita paciência e atenção. 

            Esse comportamento territorialistaapesar de normal não deve ser incentivado, e gatos que demarcam território exageradamente podem estar tensos.  Medidas simples ajudam a evitar o estresse ambiental, como oferecer recursos em abundância para o felino se sentir confortável. O número de vasilhas de água, comida e caixas de areia deve ser proporcional ao número de gatos na casa. O espaço também precisa ser amplo para cada indivíduo ter o seu cantinho seguro. Nesse ponto, o gato herdou o hábito natural de ficar em tocas onde se sente protegido de invasores. Pode ser uma casinha, uma caixa, ou um local no alto suficiente para o bichano observar tudo a sua volta.

            Outro ponto de grande importância e relação com o gato selvagem é a curiosidade que eles apresentam. E sim, a curiosidade pode matar o gato! Novamente, esse hábito é oriundo da dominância de território que o gato exerce. Tudo que é novo ele vai querer explorar, sentir e deixar seu cheiro, sejam objetos, outros animais e lugares. Esse comportamento pode ser perigoso quando o gato tenta escalar janelas, entrar em locais como motor de carro, máquina de lavar, etc. Acidentes podem ocorrer por conta disso, por isso revise sua casa inteira e evite acesso do seu felino à locais perigosos.

 

A importância do enriquecimento ambiental

            Como já exposto no artigo, apesar do gato ter ainda uma conexão com a vida selvagem, o mais seguro é mantê-lo dentro das casas e apartamentos telados, protegendo assim de diversos perigos que as ruas oferecem. Com essa espécie de confinamento é muito recomendado a aplicação do enriquecimento ambiental.

            O enriquecimento ambiental visa acrescentar elementos que gerem bem-estar físico e mental no local onde o animal vive. Esses elementos têm por objetivo tornar o ambiente mais natural aos felinos, além de estimular a atividade física e reduzir as chances do animal se tornar obeso. A partir disso, uma série de objetos, móveis, brinquedos e ações podem ser utilizadas, o importante é pesquisar sobre o assunto e usar a sua criatividade para colocar em prática:

            - Brinquedos com comida: itens que dispensam comida ou que fazem animais procurarem por alimento, como caixas ou quebra-cabeças são ótimos para entreter. Pode ser uma garrafa pet com um pequeno orifício de onde saia ração, por exemplo. Itens alimentícios não só promovem eficiente reforço positivo, mas também incentivam os comportamentos exploratórios de busca por comida, que ocupam importante parte do tempo de felinos em situação de vida natural.

            - Brinquedos para caçar: usar brinquedos simples encontrados em pet-shops como ratinhos, guizos, bolinhas que emitem sons ao rolarem. Aproveite e participe da brincadeira, é uma atividade relaxante!

            - Enriquecimento vertical: gatos amam escalar e ficar em locais altos, tal qual fazem na natureza ao subir em árvores. Colocar prateleiras, estantes ou suportes específicos para gatos são ótimos para trazer segurança aos felinos.

            - Arranhadores: colocar mais de um arranhador também é muito indicado. Pode ser de sisal, borracha ou até pelúcia. Você já sabe onde seu gato gosta de afiar as unhas, então pode fazer ou comprar um com o material que ele mais gosta. 

            - Esconderijos: crie locais onde seu bichano possa se esconder. Caixas e caminhas com buracos são os mais indicados. Assim seu gato se sente seguro quando algum estranho entra na casa (como uma visita, por exemplo).

            Por fim, é sempre importante aprendemos um pouco mais sobre a natureza do nosso animal de estimação para evitarmos um tratamento muito humanizado, que pode até parecer, mas não é benéfico para ele,respeitando as particularidades de cada espécie.

 

Fontes consultadas:

BEAVER, Bonnie V. - FelineBehavior: A Guide for Veterinarians - W.B SaunderCompany, 1992.

Comportamento social de gatos domésticos e sua relação com a clínica médica veterinária e o bem-estar animal - Tese de Doutorado (Letícia Mattos De Souza Dantas) - Universidade Federal Fluminense.

Veja.com - Ciência - Gatos: 9 atitudes dos donos que os felinos detestam

Portal Medicina Felina - Enriquecimento Ambiental para Gatos