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Comportamento alimentar - diferenças entre o homem e o cão

Cães vivem ao nosso lado há aproximadamente 20 ou 30 mil anos. Eles fazem parte da família, já estão espalhados pelo mundo todo, frequentam até shoppings e hotéis, e aprendem inúmeros truques. Apesar dessa convivência próxima por tanto tempo, e mesmo que às vezes pareça muito, a natureza dos cães está muito distante da nossa. Neste artigo vamos explicar melhor uma das principais diferenças entre o homem e o cão: a alimentação.

 

Classificação científica

Os cães, independente da raça, são descendentes diretos do lobo, com o qual compartilham grande parte do DNA. O nosso “melhor amigo” é classificado assim porque carrega 98% do DNA do lobo, e também porque pode cruzar com seu ancestral gerando filhotes férteis, chamados de animais híbridos (originários de uma reprodução entre animais diferentes). O cão e o lobo estão dentro da família dos canídeos, que inclui também a raposa, o chacal, o coiote entre outras espécies e subespécies relacionadas com esses animais. Todos eles estão dentro da ordem dos carnívoros, apesar de que algum desses, como a raposa, por exemplo, têm alimentação onívora, porém sempre necessitando de alimentos de origem animal na sua dieta também.

Já o homem está dentro da ordem dos primatas, animais muito diferentes dos carnívoros. Os primatas em geral têm uma alimentação bem variada, com base em vegetais, e normalmente não precisam caçar para comer.

Após analisarmos a classificação dos cães, bem como seus ancestrais e “parentes” evolutivos, deu para entender bem que a distância entre eles e nós, humanos, é enorme.

 

Anatomia digestiva

Cães têm todas as características anatômicas dos carnívoros. No sistema digestivo é que estão as mais específicas. As características de carnívoros presentes na boca de cães e gatos são particularmente evidenciadas sob forma de mandíbula e maxilar, dentes e apreensão do alimento. 

 

Cavidade bucal: Os dentes caninos são particularmente desenvolvidos em carnívoros, tendo como uma das funções abocanhar a presa perfurando os vasos sanguíneos. Molares e pré-molares são em formato triangular e afiados, com bordas irregulares que os torna perfeitos para “rasgar carne”, muito mais do que para mastigação.  

 Sua mandíbula é muito forte, feita para travar a mordida quando for necessário. Carnívoros praticamente não têm movimentação lateral da mandíbula, movendo-se exclusivamente como uma tesoura (abre e fecha, sem movimentos laterais), rompendo ossos e lacerando a carne, pois não precisam mastigar muito os alimentos já que sua alimentação é baseada em alimentos que não possuem cascas, sementes ou outros elementos de difícil digestão.

Se formos comparar com os seres-humanos, são várias as diferenças. Nós temos uma arcada dentária adaptada a mastigar tanto carnes como vegetais, menos força na mandíbula, e na saliva temos a presença da amilase, enzima que inicia ainda na cavidade bucal a digestão de amido (carboidrato presente nos vegetais) em onívoros e herbívoros.

 

Estômago e intestino: cães tem um estômago com acidez mais alta que humanos, pois sua alimentação rica em proteínas exige essa característica para uma melhor digestão. O estômago dos cães apresenta em volume, cerca de 60% de todo o trato digestivo. Isto significa que seu sistema digestivo é projetado para a ingestão rápida de grandes volumes de alimentos, para que sejam digeridos rapidamente O intestino (cerca de 20% do trato digestivo) é mais curto em relação nosso, pois nossa alimentação variada e rica em vegetais exige mais tempo de trânsito intestinal para a correta absorção de nutrientes.

 

 

Diferenças sensoriais           

 No aspecto sensorial, ou seja, na percepção das sensações, cães têm também grandes diferenças:

Visão:  na hora de comer, qual é a primeira coisa que analisamos no alimento? A aparência. Cães, definitivamente, não fazem isso. A visão do homem capta muitos detalhes, e utilizamos isso para previamente julgar um alimento antes de comer. A visão dos cães é adaptada para enxergar bem à noite, e captar movimentos de longe, e não para distinguir a aparência de um objeto próximo. Quando está próximo, eles utilizam o faro para identificar.

 

Olfato: é esse sentido que o cão mais utiliza para escolher sua alimentação. Seu olfato poderoso permite definir muito rapidamente do que se trata aquilo que está sendo analisado. Dificilmente cão vai tentar comer algo que não lhe chamou atenção pelo cheiro. Cães podem ter 220 milhões de células olfativas, enquanto o homem tem por volta de 5 milhões. O sabor do alimento está mais relacionado com o odor do que com o paladar por si só, principalmente nos cães que tem bem menos papilas gustativas na língua.

 

Gustação: a gustação é o sentido específico do paladar, que reconhece o sabor através de papilas na língua. O cão tem aproximadamente 1.700 papilas gustativas, e o homem por volta de 9.000. Cães normalmente preferem a carne gorda em primeiro lugar, pois a gordura é um forte palatabilizante para eles. Isso é explicado pelo fato da gordura oferecer grande quantidade de energia, já que é o nutriente mais calórico que eles podem ingerir. Portanto, a carne oferece grande quantidade dos dois macronutrientes principais para o cão: lipídios e proteínas. Se formos comparar com seres humanos, a atração por gordura é parecida, porém nós também valorizamos muito o sabor doce, gosto que os cães também identificam, porém não se sentem atraídos.

      

Mitos e crenças        

Existem alguns mitos a respeito da alimentação dos cães. Veja abaixo os dois mais comuns:

- O cachorro “enjoa” da comida: normalmente, os cães não “enjoam” de um alimento. Naturalmente, eles têm uma alimentação pouco variada, possuem baixa capacidade gustativa, e podem ingerir sempre o mesmo alimento quando todos os nutrientes foram ingeridos na refeição. O que na maioria dos casos ocorre é que o comportamento errado do dono ensina o cão a ganhar mais atenção e mais alimentos “super atrativos” (petiscos, comida caseira). Assim, ele acaba rejeitando a ração quando percebe que consegue receber recompensas por isso. Sabemos que alimentos ricos em gorduras, sódio e outros ingredientes muito palatáveis enganam o paladar do cão e o fazem se sentir atraído demasiadamente. Outro detalhe importante é que a ração supre todas as necessidades nutricionais do cão de maneira excelente, e isso o satisfaz por um longo período. Justamente o contrário dos petiscos, que acabam criando um vício e não nutrem corretamente. Cães não tem uma relação social com a comida como nós, eles não ligam de onde veio o alimento, como foi preparado e se aquilo tem algum significado emocional. Quem acaba ensinando o cão a relacionar a comida com prazeres somos nós ao “humaniza-los”.

 

- Cães ainda precisam comer carne: isso não é verdade. Por dois grandes motivos:

1- Há tempos temos falado no nosso blog que a alimentação natural dos cães é sim a base de carnes e outros alimentos de origem animal. Porém, sabemos quão difícil, oneroso e perigoso é alimentar um cão somente disso. Primeiro, que na natureza cães não comem apenas carne, eles ingerem todas as vísceras da presa, o conteúdo gástrico, a pele, roem os ossos, além de comer eventualmente insetos, frutos e outros vegetais. Portanto, é bem complicado suprir todas as necessidades dos cães apenas com alimentação caseira.

2 - As empresas que fabricam os alimentos para os pets estão muito desenvolvidas atualmente, e oferecem alimentos prontos, seguros e totalmente balanceados feitos a partir de ingredientes nobres que o cão ingeria na natureza. Ou seja, o cão acaba ingerindo a carne, porque ela está presente nas rações. Procure por alimentos com a composição à base de carnes, vísceras e outros alimentos de origem animal, e que também utilizam essências botânicas, frutas e cereais comprovadamente benéficos.

 

Fontes consultadas:

ZANATTA, C.P. et al. Fatores que regulam o consumo e a preferência alimentar em cães - Sci. Agrar. Parana, 2016.